domingo, 16 de junho de 2013

Travessia

Escrever-me. É hoje uma necessidade que quero traduzir nas palavras que me habitam. Tenho um mundo de "eus" a gritarem por serem ouvidos, a quererem ter voz, a existir através das minhas letras, dos meus textos, da minha alma. Navego neste momento por águas calmas, tranquilas após a agitação provocada pela ave de penas azuis esverdeadas. No momento em que aquela ave voou para junto de mim novamente, o baú das memórias invadiu-me: todo um passado de ilusões, de completude, de semelhanças face a uma relação complementar, oposta e promotora de crescimento. Mais uma vez, as dúvidas tomaram conta de mim, as emoções colaram-se ao coração e contaminaram o meu olhar, apagaram o meu sorriso e incendiaram o meu desespero. Procurei por respostas no passado, tentei voar até à ave de penas azuis mas algo me dizia que ainda não era o momento e que aquilo que queria não era o que realmente precisava e que não podia obrigar ninguém a resolver as coisas quando ainda não era o tempo certo, quando ainda não se sabe voar nessa direcção. Há lutos por fazer, perdas para aceitar sem pensamentos eternos de que um dia as aves voltarão a voar juntas, pelos campos das ilusões. Não. É tempo de aceitar que é preciso aprender a voar, longe da dependência, da validação e da igualdade. Apenas quando voamos com a diferença, conseguimos crescer. Apenas quando aceitamos o suposto conflito, aprendemos a subir a espiral da evolução,a limpar o nosso karma e caminhar para o nosso dharma. É altura de perceber que a chave é o presente e que a ave do passado é apenas um manto de carinho e de crescimento que desejo acompanhar, ao longe. É tempo de desconstrução interior, de renovação emocional e de voar baixinho, sentindo apenas o ar no bico e a adrenalina de não ter os pés no chão. Mais tarde, quando preparada iniciarei voos mais ambiciosos. O passado vai continuar a passar pelo presente como forma de avaliação da aprendizagem, cada vez mais intensa e mais forte mas já não tenho medo. Aquilo que já foi conquistado, é impossível de perder ou recuar. Urge a necessidade de novos erros, de novas roupagens, de novo sentires e novos voos. É a ave que pretendo ser a minha maior prioridade e a ave ferida o meu destino. É tempo de renovar o Amor, transformar a relação de amor e possível eternidade. Precisam-se voos mais altos e intensos acompanhados de evolução, de aprendizagem, de novos saberes. A ave abre as asas junto ao rio que flui, atravessa a sua profundidade e voa, ainda molhada, rumo ao céu, onde deve permanecer e deixar-se envolver. É tempo de travessias.

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